ENTRE DEUS E O CAOS
É um livro sobre a lamentação de um jovem vindo da Alemanha que ao chegar no Rio de Janeiro em 2005, o conheci.
São reflexões onde a dor é a tônica. A dor da alma é a mais mortal, mas também é a que molda o comportamento humano - pelo menos esse deveria ser o intento.
ACREDITAR
Quanto mais somos visto como aqueles que
mal usam o nosso direito a amar, mais nos julgam como àqueles outros que mal
sabem sobre Eros. O inusitado é amigo daqueles que mal sabem ler o bem. O mal
tem seu significado quando muitos padecem involuntariamente e sofrem como uma
ovelha ao matadouro. Não sei o significado de minhas lutas. Não sei o
significado de minhas lágrimas mortíferas. Vou lutando e vou chorando as marcas
de uma vida que só me pede a morte. E... O que devo fazer? Como devo agir as
pressões de uma vida toda, voltada para o sofrer? Tantos encontros, tantas
voltas ao mundo e nada. Nada que me faça acreditar, nada que me faça voltar ao
passado novamente. Somos vistos como delinquente e mal amado. Somos vistos como
algozes de nossas próprias dores. Não consigo entender! Como se faz presente o
meu estado de mortíferas flores do mal!
Quero escrever sobre meu mal, sobre meu
clamor, sobre meu amor... Não consigo me esquivar de nada que me atinge. É como
se eu tivesse mesmo que passar por tudo isso sem me ater a nenhuma flecha
inimiga. Não quero acreditar que meu mal, foi ter amado. Mas, tudo me mostra
acreditar que foi isso mesmo: amei demais e fui ao inferno. Olho a minha volta
e só vejo cinzas dos cadáveres deixados da última guerra. Só vejo a névoa
cinzenta poluindo o ar azulado. Quantos morreram ali por amor? Quantos
padeceram por um motivo o qual, não fazia sentido algum estar naquele instante?
Quantos mais de milhares, sucumbiram às armas, sem ao menos saber o porquê
estavam lutando? Eu, porém, sei e o porquê continuo a lutar... Tudo é tão
assustador. Tudo é tão infernal. Quero acreditar que, meu mundo, mesmo estando
do jeito que está não será o meu fim nem o do próprio mundo. Quero crer que
ainda, haverá uma chance, uma pequena chance, pra aqueles que ainda esperam por
amor. Aquele amor que, quando chega à porta, não quer mais parar de bater até
que lhe seja aberta. Eu acredito neste amor. Eu acredito neste sonho. Eu
acredito nesta ilusão realista. Enfim, acredito em mim e no fim de meu martírio
– embora, me seja mais doloroso acreditar, do que esperar.
Eis aí o
fim...
Essas reflexões foram um labor sobre sua estada aqui enquanto um ser pensante. Foram muitos questionamentos sobre Deus, sobre o amor, sobre o futuro. Sem fazer comparação - porque é incomparável - com a obra de Goethe, falo que se parece em termos de gênero, com Os Sofrimentos do Jovem Werther.
É um romantismo pesado, dolorido, mas de um profundo amadurecimento para a alma humana.
CAMINHANDO
TRISTE
Caminhando vai a minha vida assim, pesada
com os meus tristes pensamentos sobre meu sentido hoje de viver alegremente.
Perdi aquela alegria que me fazia buscar novas coisas, novos pensamentos. Novos
poemas. Novos horizontes. Só não perdi a fé.
Vou assim, caminhando triste, vendo as
pessoas ficarem felizes com minha falsa alegria, com meu sorriso amarelo com
meu jeito tão simples de ser.
Vou indo sim, com todos e sem ninguém. Vou
comigo e sozinho vou, para onde não sei. Para bem longe dos outros. Para bem
longe da alegria deles, a fim de não machucá-los.
Vou indo tão assim, como sempre fui e vou
sem querer, mesmo querendo ficar. A loucura se faz presente nesse sentimento
que me fiz perder minha vida nele. Como acreditar no amor? Será que amei para
nada? Estou perdendo as esperanças no amor, embora queira amar ainda.
Caminhando triste, vou sempre calado.
Sempre sozinho e sem um fim a minha frente. Nostalgia profunda a que sinto.
Nostalgia de morte. De dores adversas. De dores que me atravessa a alma. A
calma. A minha paz. E me torno um outro homem.
Vou caminhando triste. Muito triste, Com
muito pesar. Sofro por amor! Pela decepção. Pela dor que sufoca e me deseja no
inferno de meu fim. Vou com um peso que não consigo dividir. E nem quero. É
muito pesado para ser dividido com alguém. Quero ir sozinho, se padecer,
padecerei só e não trarei ninguém pra junto de mim aonde quer que eu vá. Como
posso ver o céu assim?
Vou indo sem minhas forças. Estou só. Sem
um arco. Sem uma flecha. Sem meu manto. Sem meu cobertor. Será que conseguirei?
Então ainda, falo na possibilidade – e isso é uma peculiaridade de quem ainda
tem esperança. Será que verei o fim das coisas que me machucam? Só sei que
sofro como um maluco sonhador. E não aguento mais viver assim. A comédia perdeu
o sentido pra mim. A tragédia deu lugar à primazia em meu coração. Estou (sou)
de fato, shakespeariano.
Vou indo com todos os males deste mundo. A
maldade em todos os cantos do mundo. As esquinas estão vermelhas de sangue
inocente. Meu sangue foi feito de tatuagem nos muros do meu coração.
Vou indo sem ninguém e com todo mundo. Vou
indo com meu coração e sem ele. Vou indo comigo mesmo e sem mim. O vazio é
minha tese. O nada meu álibi: sobrevirei e chegarei a doutor?
Hoje, estou um nada que coexiste dentro de
um vazio. Esse vazio é a minha existência. A minha existência um acaso. O acaso
um desastre. O desastre a grande explosão: perdi-me na história da criação. Que
hilário!
Vou indo sem minha alma. Há muito que ela
perdeu-se nos meus momentos de sanidade: fiquei maluco e saí de órbita. Hoje,
não sei como seguir além de estar preso ainda a este sentimento que hoje, está
me matando. E novamente vos falo: Não quero morrer! Mas... Não sei como me sair
deste caminho tortuoso e que só quer ver meu mal. O fim das coisas está
chegando. Não sei como virá. Se pra mim ou para meus lamentos.
É um livro onde a alma escancarada, revela os segredos mais intrínseco do ser. revela sua maior fragilidade, seu maior medo, seu maior defeito, seu maior desgosto... Mas ao final é um livro que mostra o quanto devemos nos aproximar de Deus mesmo exposto aos insucessos mais funesto. É onde devemos reconhecer o outro em seu maior e mais lúgubre erro e ainda sim perdoá-lo.
Não se atenham apenas na dor que as reflexões transmitem, mas na capacidade com que do mesmo abismo que Joh Goeth saiu, todos nós também podemos superá-lo.
Marzo Deutsch.